O Mali precisa de você

Me lembro a primeira vez que visitei o Mali, de carona com uma equipe da Visão Mundial pois apenas com o carro deles era possível fazer o trajeto ”mais rápido”: atravessando a fronteira entre o Níger e o Mali pelo deserto.

No meio do caminho me assustei com a quantidade de tendas de couro de alguns Tuaregues nômades da região. Lá estavam eles, no meio do nada: crianças correndo e brincando, outras tentando juntar as cabras, algumas mulheres voltando (só Deus sabe de onde) com balde de água na cabeça… ”Meu Deus, quanto gente! Como alcançá-los?” pensei alto me esquecendo que Deus estava me ouvindo…

”Você está vendo por alguns minutos o que eu vejo todos os dias”, me disse o Senhor.

Era impossível enxugar as lágrimas.

Chegamos no vilarejo chamado Menaka e começamos a descarregar o carro quando percebi um rapaz de turbante vindo do deserto. Continuamos alí entre malas e caixas até que percebi que ele continuava vindo e em nossa direção. Parei, continuei olhando, até que ele chegou e parou literalmente em minha frente. ele veio até mim.

Seus olhos estavam completamente pretos. Em seguida me fala em um bom francês: ”O que você está fazendo aqui? Você pensa que irá fazer alguma coisa neste lugar?”, e logo partiu de minha frente. Todos me olhavam e alí estava eu tentando digerir a receptividade espiritual que tinha sido materializada no físico. Mas ao mesmo tempo contente em saber que tinha chegado ali na hora certa e no lugar certo.

Um chamado à intercessão pelo Mali

No vídeo acima há um relato do que aconteceu recentemente no país. Uma série de ataques coordenados sem precedentes, realizados por grupos jihadistas aliados a rebeldes tuaregues. Essas ofensivas atingiram posições estratégicas do governo militar que está no poder desde 2020. Segundo informações, essa onda de violência é a mais grave dos últimos 15 anos, comparável aos acontecimentos de 2012, quando rebeldes tuaregues, inicialmente buscando independência, tomaram cidades importantes do norte. Posteriormente, esses grupos foram dominados por facções islamistas ligadas à Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, que expandiram ainda mais o conflito.

Grupos como o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), aliado à Al-Qaeda, e o Frente de Libertação do Azawad (FLA), estão por trás dos ataques recentes. A presença desses grupos em várias cidades e até mesmo a morte do ministro da Defesa evidenciam a gravidade da crise.

Um olhar espiritual sobre a crise

Diante desse cenário, não podemos olhar apenas com olhos humanos. A Palavra de Deus nos lembra: “Porque a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra principados e potestades…” (Efésios 6:12). O que vemos no Mali é mais do que um conflito político ou militar — é também um campo de batalha espiritual.

A região de Tamazgha, que compreende vários povos do norte da África, permanece em grande parte não alcançada pelo evangelho. Em meio ao caos, milhares de vidas estão sendo impactadas — famílias deslocadas, medo constante, ausência de paz. E onde não há a luz de Cristo, as trevas tentam prevalecer.

Motivos de oração

  • Ore pela paz no Mali, especialmente nas regiões de Gao e Kidal. Você pode baixar o cartaz de intercessão e colocar no mural de sua igreja. Baixe aqui.
  • Interceda pelo governo do país, por orientação e ações práticas pela segurança da população local.
  • Clame por proteção sobre os pouquissimos cristãos presentes na região e pelos missionários no país que estão vivendo sobre este toque de recolher imposto em todo o país.
  • Peça ao Senhor que levante trabalhadores para a Sua seara entre os povos de Tamazgha.

Relembrando a Fé dos 21

Em 2015, as ondas do Mediterrâneo na costa da Líbia, um dos países que fazem parte da Tamazgha, tingiram-se de vermelho, num ato que chocou o mundo, mas que também despertou um testemunho de fé. Eles não eram guerreiros nem políticos, apenas trabalhadores, pais e filhos que buscavam sustento para suas famílias. Ficaram conhecidos mundialmente apenas como “os 21”.

A história destes homens assassinados pelo Estado Islâmico por sua fé em Cristo, não é apenas um relato de tragédia, mas uma poderosa demonstração de que a luz do Pai brilha estrondosamente na escuridão. O exemplo deles continua a inspirar milhões a uma fé maior, desafiando a igreja global a não esquecer os nossos irmãos perseguidos.

A Captura e a Identidade em Cristo

No início do século XXI, o Estado Islâmico iniciou um reinado de terror em inúmeros países, perseguindo pessoas, cristãos, conquistando cidades com o intuito de implantar um Califado Islâmico. Com o desejo de “limpar” o Norte da África, se aproveitaram da instabilidade política da Líbia e um grande grupo se instalou neste país. Foi aí que em dezembro de 2014, terroristas capturaram 20 cristãos egípcios agrupando-os numa prisão subterrânea. Havia, no entanto, um homem que não pertencia ao grupo original: Mateus, vindo de Gana. Ele havia sido capturado em outro ataque. Quando o EI tentou libertá-lo, por não ser egípcio, ele recusou-se a partir. Insistiu dizendo que ele era igual aos egípcios, declarando que “O Deus deles também é o meu”. Assim o grupo tornou-se os 21.

O Sobrenatural em Meio ao Caos

Relatos indicam que houve momentos em que o céu parecia mudar de cor e houve um pequeno tremor de terra quando eles oravam “Senhor, tem piedade” em uníssono, o que amedrontava os seus captores. O terroristas do EI, ao filmá-los caminhando pela praia, por vezes viam “figuras estranhas” entre os cristãos: alguns com espadas, outros montados em cavalos. O medo instalou-se no coração dos terroristas, que tinham pressa em executá-los antes que “aqueles que estavam com eles” atacassem. Esses são relatos de alguns que foram capturados e estiveram presentes no momento da execução.

Os homens caminhavam olhando para o céu, orando em silêncio. Diante das câmeras, enquanto a mensagem de ódio era proferida contra a “nação da cruz”, os lábios dos mártires pronunciavam: “Senhor, tem piedade” e “Jesus, perdoa-lhes”.

Um a um, foram degolados, sem que nenhum negasse a sua fé. Todos morreram com o nome de Jesus nos lábios. O ato, divulgado em vídeo em 15 de fevereiro de 2015, foi condenado mundialmente, causando grande comoção mundial. Se você tiver 13 minutos livres, assista esta animação, em forma de documentário, para conhecer mais do ocorrido (você pode ativar a legenda em Português):

Uma das viúvas quer falar com você

O testemunho dos parentes desses 21 que morreram brutalmente por causa de Jesus é impressionante. Queremos compartilhar um desses testemunhos com você, um curto relato de uma das viúvas, para que seja de edificação para as nossas vidas, nos relembrando de que ”se um membro sofre, todos sofrem”. Ore pelos cristãos no Norte da África, interceda por aqueles que estão sendo perseguidos!

 

Beba café frio

É impressionante a quantidade de coisas que você aprende quando se vive em uma outra cultura. Vai desde coisas simples, como outras que não fazem muito sentido para aquilo que você entende como ”correto”.

No Níger com os Tuaregues, entre as muitas coisas que eu aprendi, foi a de matar a sede bebendo água quente. Nada de espantoso quando se vive em um contexto semiárido e desértico pois encontrar uma Brastemp na casa (tenda) de seus amigos é uma verdadeira miragem… Claro que eles possuem técnicas interessantes para que a água não fique quente mas era difícil não fugir dessa situação.

Já aqui onde moro aprendi a beber café que vai ficando frio. Tomar café com um amigo é a maior rede de conexão local e obviamente o mesmo não pode ser bebido ”às pressas”. Tive que aprender essa lógica logo no início de nossa jornada. Ao reparar a cara fechada de um amigo, ele sem hesitar me pergunta:

– Tá com pressa? Você precisa ir embora?

– Não! Por quê?! 

– Tudo bem… É que você bebeu rápido o teu café, pensei que você tem outras coisas para fazer! 

Meu Deus do céu, quem foi que disse que estou tomando café ”rápido demais”?

Eles.

Está com um amigo? Não beba o café rapidamente

Então a xícara fica ali na sua frente e o café é degustado aos poucos em meio à muitas conversas e interações. Taxistas aqui podem passar metade de um dia com aquele copinho pequeno de café expresso logo alí perto de sua mão…  O último gole acontece quando você está pronto para dizer ”besslama” (”tchau”). Foi engraçado, já no Brasil (de passagem), se assustar com o meu próprio povo bebendo o café ”rapidamente”. Certa feita uma amiga (no Brasil) me perguntou se o café estava ruim pois eu estava ”demorando demais” para beber.

Esse texto não é sobre beber café frio. É sobre como o modelo do próprio Rei se tornou a máxima a ser seguida. Não é sobre ter (ou não) um cafezinho quente na mesa, ou uma Coca gelada para matar a sede, mas sim demonstrar de maneira sincera o quanto aqueles que estão ao nosso redor são importantes e valiosos para nós. Apresentar nosso Amigo maior não é uma dádiva preciosa? E isso se dá com sinceridade amorosa do coração.

Portanto, servir água quente e um prato de sorgo, sentado em um tapete lá no deserto do Níger, pode ser a mesma coisa que aquele almoço especial oferecido por uma família em seu lindo apartamento da Asa Sul (Brasília). O amor que inunda as ações (já realizado nos céus e replicado hoje na terra) é o que rege a recepção mais clara que o próximo vai ter de você. Não é sobre o que você tem para mostrar, mas sim a sinceridade repleta de Luz que faz brotar no coração do próximo que ele foi alvo do maior oferecimento já visto. Isso faz toda a diferença, e não se engane: facilmente reconhecível.

À onze anos bebendo café que vai ficando frio

Isso mesmo. Exatamente hoje, à 11 anos atrás, um avião da antiga Alitalia descia aqui nessa terra, às 10:20 da manhã. Não foi fácil chegar aqui, permanecer é um privilégio e um desafio. Será extremamente doloroso ir embora um dia… Afinal de contas, me fale onde eu poderei beber café ”ficando frio” sem ser julgado por isso?!

Eu sei que sou tecnicamente 100% brasileiro. Porém eu prefiro dizer que talvez eu seja aquele tipo de peregrino, que vai caminhando e trocando pedaços do coração, enterrando um pedacinho aqui e acolá por onde eu vou. Então se a minha casa é onde o meu coração está, posso dizer que é onde eu como com as mãos um delicioso cuscus marroquino, bebo três vezes um chá de tirar o sono em um tapete no Níger, sem me esquecer daquele feijãozinho preto com carne seca dentro que minha mãe faz. E se o café ficar frio por aqui? Sem stress.

E não posso terminar sem fazer um agradecimento público: obrigado Alissa por me fazer lembrar ontem dessa história do café. Muito provavelmente não iria escrever nada sobre isso, mas a sua lembrança do que ouviu de mim à uns anos atrás me provocou à repetir algo que tenho feito com muita frequência desde o ano passado: trazer a memória experiências simples mas que são as mais fantásticas que vivi na minha vida.

Em meio a essa caminhada nossa aqui e acolá, um dia estaremos todos em nossa Pátria, com muitos outros que entraram na festa por conhecerem o valor imenso da comunhão com Ele. Nos deleitaremos no banquete da presença do Rei, será uma delicia de momento eterno!

Mas até lá, não hesite: se o teu café se esfriar, continue!