Beba café frio

É impressionante a quantidade de coisas que você aprende quando se vive em uma outra cultura. Vai desde coisas simples, como outras que não fazem muito sentido para aquilo que você entende como ”correto”.

No Níger com os Tuaregues, entre as muitas coisas que eu aprendi, foi a de matar a sede bebendo água quente. Nada de espantoso quando se vive em um contexto semiárido e desértico pois encontrar uma Brastemp na casa (tenda) de seus amigos é uma verdadeira miragem… Claro que eles possuem técnicas interessantes para que a água não fique quente mas era difícil não fugir dessa situação.

Já aqui onde moro aprendi a beber café que vai ficando frio. Tomar café com um amigo é a maior rede de conexão local e obviamente o mesmo não pode ser bebido ”às pressas”. Tive que aprender essa lógica logo no início de nossa jornada. Ao reparar a cara fechada de um amigo, ele sem hesitar me pergunta:

– Tá com pressa? Você precisa ir embora?

– Não! Por quê?! 

– Tudo bem… É que você bebeu rápido o teu café, pensei que você tem outras coisas para fazer! 

Meu Deus do céu, quem foi que disse que estou tomando café ”rápido demais”?

Eles.

Está com um amigo? Não beba o café rapidamente

Então a xícara fica ali na sua frente e o café é degustado aos poucos em meio à muitas conversas e interações. Taxistas aqui podem passar metade de um dia com aquele copinho pequeno de café expresso logo alí perto de sua mão…  O último gole acontece quando você está pronto para dizer ”besslama” (”tchau”). Foi engraçado, já no Brasil (de passagem), se assustar com o meu próprio povo bebendo o café ”rapidamente”. Certa feita uma amiga (no Brasil) me perguntou se o café estava ruim pois eu estava ”demorando demais” para beber.

Esse texto não é sobre beber café frio. É sobre como o modelo do próprio Rei se tornou a máxima a ser seguida. Não é sobre ter (ou não) um cafezinho quente na mesa, ou uma Coca gelada para matar a sede, mas sim demonstrar de maneira sincera o quanto aqueles que estão ao nosso redor são importantes e valiosos para nós. Apresentar nosso Amigo maior não é uma dádiva preciosa? E isso se dá com sinceridade amorosa do coração.

Portanto, servir água quente e um prato de sorgo, sentado em um tapete lá no deserto do Níger, pode ser a mesma coisa que aquele almoço especial oferecido por uma família em seu lindo apartamento da Asa Sul (Brasília). O amor que inunda as ações (já realizado nos céus e replicado hoje na terra) é o que rege a recepção mais clara que o próximo vai ter de você. Não é sobre o que você tem para mostrar, mas sim a sinceridade repleta de Luz que faz brotar no coração do próximo que ele foi alvo do maior oferecimento já visto. Isso faz toda a diferença, e não se engane: facilmente reconhecível.

À onze anos bebendo café que vai ficando frio

Isso mesmo. Exatamente hoje, à 11 anos atrás, um avião da antiga Alitalia descia aqui nessa terra, às 10:20 da manhã. Não foi fácil chegar aqui, permanecer é um privilégio e um desafio. Será extremamente doloroso ir embora um dia… Afinal de contas, me fale onde eu poderei beber café ”ficando frio” sem ser julgado por isso?!

Eu sei que sou tecnicamente 100% brasileiro. Porém eu prefiro dizer que talvez eu seja aquele tipo de peregrino, que vai caminhando e trocando pedaços do coração, enterrando um pedacinho aqui e acolá por onde eu vou. Então se a minha casa é onde o meu coração está, posso dizer que é onde eu como com as mãos um delicioso cuscus marroquino, bebo três vezes um chá de tirar o sono em um tapete no Níger, sem me esquecer daquele feijãozinho preto com carne seca dentro que minha mãe faz. E se o café ficar frio por aqui? Sem stress.

E não posso terminar sem fazer um agradecimento público: obrigado Alissa por me fazer lembrar ontem dessa história do café. Muito provavelmente não iria escrever nada sobre isso, mas a sua lembrança do que ouviu de mim à uns anos atrás me provocou à repetir algo que tenho feito com muita frequência desde o ano passado: trazer a memória experiências simples mas que são as mais fantásticas que vivi na minha vida.

Em meio a essa caminhada nossa aqui e acolá, um dia estaremos todos em nossa Pátria, com muitos outros que entraram na festa por conhecerem o valor imenso da comunhão com Ele. Nos deleitaremos no banquete da presença do Rei, será uma delicia de momento eterno!

Mas até lá, não hesite: se o teu café se esfriar, continue!

Isso mesmo: pra sempre!

Muito obrigado! Olha, tomara que lá no céu continuamos a ser amigos, como aqui na Terra…

Foi dessa forma que o C saiu de nossa casa ontem, depois de ter aceito mais um convite para jantar conosco. Vocês não tem ideia do lindo e esperanço sorriso que tivemos ao ouvir isso!

O C veio até nós depois que a Mesquita “fez a chamada”. Como está fazendo o Ramadã, ele (e os quase 2 bilhões de muçulmanos no mundo) só pode(m) comer algo após “o sinal da Mesquita”. O sol se põe, o Imã faz a chamada, e aí todos começam a comer… Tem sido assim durante este mês. Hoje foi o último dia e amanhã é o Eid Al Fitr aqui, dia de festa e um feriado de dois dias. Todos compram roupas novas e vão – finalmente – aos cafés, passear, algumas ruas são fechadas para que crianças possam brincar… Enfim, o fim do Ramadã chegou.

Não foi fácil. Eu tenho para mim que foi um dos mais difíceis, durante esses 27 anos no “mundo muçulmano”. Ataques diversos, tanto físicos como também espirituais. Só Deus sabe, assim como alguns “amigos de perto”.

É por isso que sempre convocamos orações, intercessões, aos nossos familiares, amigos e igreja. Não somente por nós mas por eles, para que o Deus verdadeiro se releve.

E ontem a noite, ao redor da mesa, foi assim! Oramos no nome de Jesus, falamos do que cremos, também nos divertimos, conversamos muito… Tivemos uma boa e excelente discussão e o C se mostra bem atento ao que falamos. Nunca será por força, muito menos por violência. Temos Aquele que sopra onde quer, louvado Ele seja! Você pode orar pelo C e por todas as outras pessoas que conversamos durante este mês?

Você e eu, teus familiares que tanto amamos, e alguns amigos próximos, são amigos eternos porque fomos agraciados de maneira incrivelmente maravilhosa pelo Dom da Vida. Essa Boa Nova chegou até você por alguém, houve uma visita especial do Verbo e, convencido por Ele, nos tornamos Filho do Altíssimo!

E é por isso que estamos aqui. Queremos que eles vejam quem é o nosso Amigo (com “A” maiúsculo), para que sejam visitados por ele (“…hoje me convém pousar em tua casa”). Obrigado por estar aqui conosco!

Foi Carnaval?

Semanas atrás houve um festival cultural ao sul do país, um lugar bem peculiar onde a cultura Amazigh (”Bérbere”) foi exaltada. É muito interessante ver todos os aspectos culturais, seja através dos vídeos, fotos e depoimentos das pessoas que participaram deste festival. Um desses depoimentos foi extravagante: ”Esse foi o nosso Carnaval!”, exclamou o rapaz com muita alegria.

Bom, não é preciso entrar na etimologia da palavra usada e de como nós, brasileiros, compreendemos a mesma. Obviamente que em sua cabeça ele pensava em uma ”festa popular”, um evento cultural que incendiou aquela pequena cidade no meio das lindas montanhas ao sul da Tunísia.  Se uma imagem vale mais que mil palavras, que tal dar uma olhadinha em algumas delas?

Vendo as danças, reparando nas cores das roupas, a interação popular, os sorrisos das crianças, ficamos à imaginar como seria gracioso se a mesma fosse santificada pelo sangue do Cordeiro. Afinal de contas, cada cultura, quando santificada, se torna um culto de adoração à Deus. Não será esse o resultado final, a cura das nações?

Sabemos que há aspectos culturais que não glorificam o Pai, coisas que foram manchadas e corroídas pelo pecado que veio de Adão. Todavia Cristo veio para fazer com que todas as cores sejam redimidas, se tornando uma só, pois através  do Seu triunfo nos tornamos uma grande família, para festejar a alegria eterna do Emanuel.

Nossa oração (e espero que seja a sua também) seja para que as culturas e festividades desses numerosos vilarejos entre as muitas montanhas da África do norte, se tornem um culto agradável ao Eterno!

Só nos resta lembrar o que o profeta Isaías disse à muito tempo atrás, e fazer eco à sua fala, como oração ao nosso Deus…

” Levanta em redor os teus olhos, e vê; todos estes já se ajuntaram, e vêm a ti; teus filhos virão de longe, e tuas filhas serão criadas ao teu lado. Então o verás, e serás iluminado, e o teu coração estremecerá e se alargará; porque a abundância do mar se tornará a ti, e as riquezas dos gentios virão a ti. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e Efá; todos virão de Sabá; ouro e incenso trarão, e publicarão os louvores do Senhor. Todas as ovelhas de Quedar se congregarão a ti; os carneiros de Nebaiote te servirão; com agrado subirão ao meu altar, e eu glorificarei a casa da minha glória. ”

Que assim seja! Pois assim será, para todo o sempre!