O ano era 2009 e estávamos na Escócia para completar uma parte do treinamento linguístico para enfim chegar no norte da África. No nosso dia de folga fomos dar uma volta na cidade. Foi aí que algo inusitado e muito prazeroso aconteceu.
Entramos em uma loja e me dei de cara com um homem vestido com um turbante e roupas que eu conhecia muito bem. Quando fui ver quem é, era o Mohamed, meu primeiro professor ”de línguas estranhas” lá no Níger: O Tamachek, língua dos Tuaregues. ”Meu Deus do céu, isso é real?!” Sorrisos largos apareceram de ambos os lados, juntamente com aquele abraço saudoso e cheio de emoção. Teria o Níger e os tuaregues vindo até a mim?
Areia, dança e Moisés…
Mês passado houve na Argélia uma festa tuaregue chamada Sebiba (ou Sbeiba) que acontece anualmente em Djanet, ao sul do país. Os homens se vestem de trajes guerreiros tradicionais, dançando e simulando batalhas. Espadas por todos os lados, e mulheres cantando no famoso ritmo do deserto em meio aos tambores.
Segundo a tradição oral essa festa é comemorada à mais de 3 mil anos devido a paz selada entre duas tribos tuaregues rivais que viviam em guerra constante. A reconciliação aconteceu no dia que souberam da vitória de Moisés sobre Faraó e seu exército, na travessia do mar, onde os inimigos morreram afogados e isso se tornou um símbolo da derrota do mal e da vitória da justiça. Segundo relatos orais, foi assim que a Festa Sebiba começou e continua sendo comemorada todos os anos. E isso na Argélia.

Poxa Deus, me dá isso de presente?
Eu fiquei doido para ir a essa festa e tive a brilhante ideia de pedir a Deus para me deixar ir, apesar dos desafios que eram grandes. Estou “bem aqui do lado”, seria complicado atravessar a fronteira? Eu sei que tirar o visto já é uma complicação já que na única vez que passei por lá (em trânsito) nunca havia visto um aeroporto com tanto controle como o deste país! Bom, é certo dizer que vi as ”armas caírem” quando os policiais de controle de fronteiras me viram vestido com a camisa da Seleção Brasileira. Me abraçaram, beijaram o meu rosto, falando ao pé do ouvido ”Brésil!”, ”Ronaldô!”, ”Romáriô”. Nem quiseram ver meu passaporte. Me senti em casa.
E se eu fosse de novo com a camisa do Brasil?
Na verdade, eu queria muito reviver esse tempo saudoso onde eu só andava de turbante na rua, sentava em tapetes e bebia o famoso chá. A frase “Deus, bem que o Senhor poderia me dar isso de presente, né?”, era a minha oração por meses. Queria montar em um camelo novamente, festejar com eles sobre este símbolo da vitória da Justiça onde a paz selada é dançada nas areias do deserto.
Saudade minha
Preciso ser sincero: me convenci que saudade não se mata. Eu poderia ter ido nessa festa, ser surpreendido novamente por um novo encontro com o Mohamed em algum lugar deste mundo. Mas nada dessas coisas iriam ”matar a saudade” de tudo aquilo que foi vivido e permanece dentro de mim, dentro de nós. Foram movimentos incrivelmente e exclusivamente planejados e executados em / por Deus, jamais imagináveis, nem em meus sonhos mais loucos.
Deus ouviu o meu pedido, soube do meu desejo, porém não fui presenteado com a minha presença nessa festa (snif). Estou aprendendo a ter essa paz interior, de que lugares incríveis e pessoas maravilhosas passam e você é sempre presenteado em cortar pedacinhos de seu coração e deixar eles ”enterrados por aí”.
Isso me lembra uma história real e fascinante, mas sem intuito algum de comparação. Longe disso.
Certa feita tivemos a alegria de visitar a Abadia de Westminster, em Londres, e ver onde David Livingstone havia sido enterrado. Em meio à reis e rainhas, personalidades famosas, lí em seu epitáfio: ”Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco”. A história diz que antes de embalsamar o seu corpo para ser levado para a Inglaterra, seu coração havia sido retirado e enterrado em solo africano, atual Zâmbia, perto de uma árvore. Dia 1 de Maio de 1873 foi quando isso aconteceu.
Tenho saudades enormes da areia, das amizades diversas, lugares e desafios grandes que tivemos. Muitas saudades e com certeza absoluta terei outras ainda. Mas sempre agradecido pelo presente que Deus nos dá ao ouvir Sua voz ecoando por graça imerecida dentro de nós: “e viu Deus que era bom”.
Sim Deus, foi e é muito bom!

