Hoje pareceu ser daqueles dias que você se movimenta tanto, vai de um lado para o outro, mas nada parece se mover. Um problema aqui é acolá, idas e vindas para achar uma solução. E tudo isso ao sol de 42 graus… Verdade é que vivemos no Níger com mais de 50 mas faz mais de 20 anos que saímos de lá. Enfim…
“Deixa eu pelo menos sentar em uma cafeteria e esperar o eletricista aparecer e ver se consigo resolver tudo hoje“, pensei. Afinal de contas, ninguém é de ferro e eu queria MUITO resolver o que precisava. Os dias correm e meu tempo está se encurtando, em todos os sentidos. Pedi meu café, fui sentar na pequena varanda para pegar uma brisa e orar para que o eletricista aparecesse o mais rápido possível. As orações também viraram uma “luta espiritual imensa” pois a TV daquela cafeteria simples estava a pleno vapor recitando versos do Alcorão. “Que droga, esqueci que hoje é sexta-feira!“. Como as sextas deles são como os nossos domingos, é normal ligarem as TVs e ficar ouvindo bem alto esses recitos para se prepararem para a reza das 13h.
“Será que o eletricista vai vir trabalhar hoje!?“. Não procurei responder pois minha cabeça já estava com tantas perguntas sem resposta que era melhor me concentrar na brisa e no meu café.
Foi aí que um senhor bem velhinho se aproximou de mim e me perguntou se poderia sentar na mesma mesa que eu estava. Era a única do lado de fora que pegava a tão sonhada brisa. “Tfadel khoya!” (“Por favor meu irmão!”). Reparei que ele era cego e caminhava com dificuldade, perguntou onde estava quem servia porque queria pedir um café. Disse que ia buscar para ele e trouxe água também. Puxou uma nota de 5 Dinares (dá uns 10 Reais) para me dar e eu falei que não precisava, estava tudo certo… “Que Deus te recompense meu filho!“, me disse.
Apesar de eu não estar muito para conversa (risos) começamos a conversar. Apontou com a mão o lugar onde trabalhou (uma confecção não muito longe dali) e que todos os dias precisava dar uma volta no quarteirão para se exercitar. Perguntei seu nome (Abdu) e onde morava, e ele me falou de sua família. “Por que você está aqui?“, me perguntou e eu disse que estava esperando o eletricista chegar. “Se Deus quiser ele vai vir meu filho“. Me disse que resolvera sentar ali para esperar a chamada da Mesquita e ir rezar.
Conversa vai, conversa vem, ele me disse que teve um AVC muito forte mas que graças a Deus ainda conseguia se movimentar. Me mostrou até onde o seu braço esquerdo levantava e fez isso com enorme esforço. Foi aí que eu tive “um piripaco emocional” e meus olhos lacrimejaram… Os dele também. Perguntei se ele estava sendo bem cuidado, se tinha gente que o ajudava e ele disse que sim. Lembrei do meu pai.
Ao dizer que era um seguidor do Cr15t0, ele disse: “Ah é? Que bom meu filho“. Falei que havia outros seguidores d’Ele nesse país e para minha surpresa ele disse que já sabia. Perguntei se ele tinha consciência de que Ele vai voltar um dia e me afirmou que sim, além de enfatizar que o Cr1.st0 foi um dos grandes dessa terra. A partir daí a conversa rodou em volta do Ressureto e de como Ele está atento a nós, que está assentado junto à Deus. O velhinho simpático se mostrou bem acessível embora eu tenha reparado que ele fez uma expressão de “não entender” quando me ouviu falando, por inúmeras vezes, que eu iria orar para o Cristo, pedindo por Sua benção à ele e sua família. Acabei fazendo uma 0r4.c4o, com os olhos abertos mesmo, tocando em seu lado esquerdo, desejando paz, saúde e tudo o que o Cr.1st0 pode dar. Ouvi muitos améns.
Não sei quanto tempo passei ali mas tive que ir embora. Falei que era brasileiro e ele se assustou (porque eu vim de longe)… “Logo reparei no teu sotaque, de que não era daqui“, replicou ele sorrindo (risos). Disse para ele que precisava voltar amanhã para tentar encontrar o eletricista. “Se você vier amanhã, vou vir também“, me respondeu para a minha alegria. Vamos ver se ele (e o eletricista) vão aparecer amanhã. Nsh’Allah (se Deus quiser).
Essa é a segunda vez que Deus me faz encontrar cegos aqui. O primeiro foi logo no início de nossa caminhada por estas bandas e agora, no finalzinho, aparece um outro… Esqueci dos problemas, das perguntas sem respostas, do cansaço físico e mental e tantas outras coisas que desgastam a rotina. Voltei pra casa aliviado e ruminando no que acabara de acontecer.
E para finalizar de vez a jornada indigesta em digesta, tive que parar em um lugar para comprar um óleo. Vi uma criança sentada na porta e não tinha ninguém ali. “Moço, desculpa, meu pai foi ali comprar um negócio mas já já volta para te atender“, me disse ela. “Sem problema, eu espero!“. Diferentemente do eletricista que me deixou na mão, o pai da menininha veio. Eram do Marrocos, falei que morei lá. Risos na face. Mais conversa.
Sei que Deus se faz presente em dias tensos e difíceis. Isso é muito bom. E agora eu acho que em dias assim, preciso pedir à Ele para me enviar mais uma vez um cego. Afinal de contas, preciso abrir meus olhos.


