Como foi o nosso Eid?

É impossível não esquecer do nosso primeiro Eid (”festa do sacrifício”) no Níger. Imagine você, que não aguenta ver uma gota de sangue, de repente se depara com animais que terão suas gargantas cortadas bem na sua frente? Enquanto preparam o utensílio a ser usado, fazem um buraco na terra para que o sangue seja colocado ali… Uma experiência bem traumática.

Mas, graças ao bom Deus, o máximo que víamos no norte da África eram os pratos bem preparados que chegavam prontos em nossa porta para serem degustados. É claro que é difícil dormir uma noite antes, já que há os berros dos carneiros dos vizinhos por todos os lados!

Sonho, saudade e esperança

Chegou o dia de pagar o nosso aluguel e eu precisava combinar com o proprietário do apartamento onde se encontrar. Essa é minha rotina mensal. Mas aí fiquei sabendo que ele estava no aeroporto, indo para Mecca, se juntar com milhões de muçulmanos do mundo inteiro para o famoso Hajj. Iria participar de todos os eventos da famosa peregrinação islâmica, como dar as 7 voltas ao redor da Caaba. Falando nela, se encontra em uma de suas pontas uma pedra escura, disputada intensamente por muitos para ser tocada e beijada. No telefone ele me falava da esperança que ele tinha de se sentir feliz. Como todo muçulmano, estava indo em direção à um sonho a ser realizado, sonho esse que deve acontecer pelo menos uma vez na vida, caso seja financeiramente possível. E isso custa ($) e muito.

Miniatura de 1307 DC retratando Maomé fixando a pedra negra na Caaba

 

 

 

 

 

 

 

Chega o primeiro dia do Eid, um dos nossos vizinhos (o mesmo que ganhou uma Bíblia) me chamou para tomarmos um café juntos. ”Viu, teria como a gente passar rapidinho no cemitério? Poucos dias antes de minha mãe morrer, ela me fez prometer de ir lá vê-la, em cada Eid. Podemos ir?”, me questionou. Sim, falei que podemos ir mesmo odiando cemitérios (risos). Mas foi uma experiência interessante. Fiquei observando meu amigo fazendo suas rezas, junto com várias pessoas que também estavam no local. Os túmulos me pareciam bem simples em comparação ”com os nossos”, há escrituras de versículos do Alcorão ao redor de todo o espaço, fazem um compartimento de cimento e decorações ao redor. Em seguida meu amigo me falou sobre o descanso em Deus, de como Ele é gracioso para nos aliviar da vida dura que temos. Falei do descanso que nós, cristãos, acreditamos e que é somente por graça divina que temos acesso a essa promessa, e que já é possível ter essa paz da segurança eterna aqui e agora. ”Não é um passaporte para o Paraíso, mas viver uma vida tendo Deus em nós por causa de Sua Palavra”, enfatizei.

A noite chega, assim também os dois pratos em nossa porta… Deliciosos! Vieram de pessoas diferentes. Agradecemos a gentileza de nossos vizinhos. Antes de dormir, nos ajoelhamos diante do Cordeiro de Deus pedindo intensamente para sejam visitados pelos sonhos do Pai, deste que ainda não conhecem. Ter de uma vez por todas a certa Esperança da vida eterna.

Ritos e tradições

No decorrer da história, em diversos momentos e civilizações, é impressionante ver a quantidade de ritos e tradições que a humanidade desenvolveu com o intuito de se aproximar desse Ser Supremo. Sacrifícios diversos são feitos na esperança da tão desejada vida abundante após a morte. E se esses sacrifícios não são assim tão visíveis em contextos mais ocidentais, essa sede da esperança eterna é evocada de outras formas. A pergunta que sempre fazemos é: como a nossa vida em Cristo pode ser a apresentação graciosa dessa Vida Eterna que começa aqui e continua eternamente?

Devemos confessar que é muito gracioso olhar as famílias juntas, andando nas ruas, crianças felizes ao vestirem roupas novas… Ver esse tempo que eles tem juntos, em famílias, é muito bom. Mas também ficamos a imaginar o coração do Pai que oferecera o Cordeiro antes mesmo da fundação do mundo, criando encontros e conexões para que conheçam O Convite que outrora lhes foi feito.

Essa é a nossa festa diária, aberta e disponível para todos, em todos os cantos e lugares. Que Ele nos ajude a celebrar a Vida para que muitos se juntem à Ele nessa celebração que não haverá fim. Afinal de contas, jamais podemos nos esquecer do que Ele disse…

Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.