É impossível não esquecer do nosso primeiro Eid (”festa do sacrifício”) no Níger já que ver pescoços de animais serem cortados, derramando o sangue em um buraco feito na terra, foi uma experiência bem traumática. Para uma pessoa que odeia ver sangue, ver esse ato em minha frente foi um choque e tanto. Mas já no norte da África, graças ao bom Deus, o máximo que víamos eram os pratos bem preparados que chegavam em nossa porta para serem degustados.
Sonho, saudade e esperança
Antes da festa do Eid tive que pagar o aluguel do apartamento onde moramos e precisava combinar com o proprietário onde iríamos nos encontrar. Essa é minha rotina mensal. Mas quando liguei ele estava no aeroporto indo para Mecca, para finalmente fazer o Hajj. Se juntaria à milhões de muçulmanos do mundo inteiro, participar de vários eventos como também dar as 7 voltas ao redor da Caaba. Em uma das pontas da mesma há uma pedra negra que é disputada intensamente por vários pois querem tocar e beijar. No telefone ele me falava da esperança dele se sentir alegre, foi o que me disse. Como todo muçulmano, estava indo à um sonho a ser realizado, sonho esse que deve acontecer pelo menos uma vez na vida, caso seja financeiramente possível. E isso custa ($) e muito.

Já no primeiro dia do Eid, um dos nossos vizinhos (o mesmo que ganhou uma Bíblia) me chamou para tomarmos um café juntos. ”Viu, teria como a gente passar rapidinho no cemitério? Poucos dias antes de minha mãe morrer, ela me fez prometer de ir lá vê-la, em cada Eid. Podemos ir?”, me questionou. Sim, falei que sim mesmo odiando cemitérios (risos). Fiquei observando meu amigo fazendo suas rezas, junto com várias pessoas que também estavam ali. Os túmulos me pareciam bem simples em comparação ”com os nossos”, há escrituras de versículos do Alcorão ao redor de todo o espaço, fazem um compartimento de cimento e decorações ao redor. Em seguida meu amigo me falou sobre o descanso em Deus, de como Ele é gracioso para nos aliviar da vida dura que temos. Falei do descanso que nós, cristãos, acreditamos e que é somente por graça divina que temos acesso a essa promessa, e que já é possível ter essa paz da segurança eterna aqui e agora. ”Não é um passaporte para o Paraíso, mas viver uma vida tendo Deus em nós por causa de Sua Palavra”, enfatizei.
A noite chega, assim também os dois pratos em nossa porta… Deliciosos! Agradecemos a gentileza de nossos vizinhos, que não estavam em suas casas mas se lembraram de nós e nos trouxeram uma porção para a gente. Antes de dormir, nos ajoelhamos diante do Cordeiro de Deus pedindo que tenham os sonhos do Pai, a esperança segura da vida eterna na convicção que o preço já foi pago por Ele.
Ritos e tradições
No decorrer da história, em diversos momentos e civilizações, é impressionante ver a quantidade de ritos e tradições que a humanidade desenvolveu com o intuito de se aproximar desse Ser Supremo. Sacrifícios diversos são feitos na esperança de uma vida abundante após a morte. E se esses sacrifícios não são assim tão visíveis em contextos mais ocidentais, essa sede da esperança eterna é evocada de outras formas. A pergunta que sempre fazemos é: como a nossa vida em Cristo pode ser a apresentação graciosa dessa Vida Eterna que começa aqui e agora?
Verdade é que muito legal ver as famílias juntas andando nas ruas, crianças felizes ao vestirem roupas novas… Ver esse tempo que eles tem juntos, em famílias, é muito bom. Mas também fico a imaginar o coração do Pai que oferecera o Cordeiro antes mesmo da fundação do mundo, nos convidando dia após dias para ecoar tamanha Graça e Amor.
Esse é o nosso Eid, a nossa festa diária, aberta e disponível para todos, em todos os cantos. Que Ele nos ajude a celebrar a Vida para que muitos se juntem à Ele nessa celebração que não haverá fim.


